Neste texto pretendemos confrontar dois importantes produtores de imagens paulistanos na década de 1860, o caricaturista ítalo-brasileiro Ângelo Agostini e o fotógrafo paulistano Militão Augusto de Azevedo. Com essa comparação, pretendemos investigar a São Paulo da década de 1860, quando a cidade vivia um momento de transição, respirava modernidade. Nessa década, a linha férrea foi construída, e as paisagens da paulicéia mudavam rapidamente.
Agostini estudou na França e chegou ao Brasil com 17 anos, no fim do Império. Passou dois anos no Rio de Janeiro e mudou-se para São Paulo, onde moravam sua mãe, Raquel Agostini, e seu padrasto, o português Antônio Pedro Marques de Almeida. Na capital paulista, Agostini lançou seus dois primeiros jornais, feitos em parceria com Luiz Gama e outros colaboradores responsáveis pelo texto: O Diabo Coxo (1864 – 1865) e O Cabrião (1866 – 1867). (CAGNIN)
Já o fotógrafo Militão Augusto de Azevedo registrou, também na década de 1860, imagens do “burgo paulistano que, nas décadas seguintes desapareceriam como comprovam suas próprias fotografias, realizadas nos mesmos locais, 25 anos depois”[1]. De acordo com Boris Kossoy, Militão Augusto de Azevedo (1837-1905) atuou nas duas áreas da fotografia do século 19, a paisagem e o portrait (retrato tirado em estúdio). Ele fez diversos registros fotográficos de São Paulo entre 1862 e 1887, lançados em forma de álbuns, o primeiro intitulado Álbum Comparativo de Vistas da Cidade de São Paulo (1862-1867), que, conforme explicita o título, contém registros fotográficos de dois momentos da cidade. Também nos interessam, para esta comparação, mais dois álbuns: Vistas da Cidade de São Paulo (1863) e um segundo Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo (1862-1887). O acervo com mais de 12 mil fotos está disponível no Museu Paulista.
Imaginamos que a utilidade desse confronto entre as duas obras é a seguinte: o fotógrafo ajudou a construir a imagem, literal e metaforicamente, de uma cidade em progresso, de inegável inspiração positivista, em que o avanço é sinônimo de uma trajetória rumo ao futuro certo e sempre melhor, na linha “ordem e progresso”. Agostini, por outro lado, provavelmente é pioneiro em explicitar o contrário: a imagem, também real e metafórica, de uma cidade que deu errado, em que o caos ordena os dias – o correio não funciona, o transporte é péssimo, a administração é corrupta, a vida cultural é lamentável. Para Militão, São Paulo é a província que progride, haja vista seu interesse por construções; para Agostini, o progresso agrava o que já não funciona. Um é otimista, o outro é pessimista, num período crucial para a cidade, em que, por exemplo, as linhas férreas passam a ligar São Paulo com o litoral.
A imagem como fonte historiográfica
Para introduzirmos as questões teóricas relativas a este texto, temos que resenhar os principais desdobramentos dos estudos sobre cultura material. É com base nesses estudos e, particularmente, nos relativos à imagem enquanto fonte histórica, que procederemos à análise das obras de Militão e Agostini.
No século 19, a arqueologia aprofundou o estudo da cultural material - mais precisamente de objetos, estátuas e imagens. Esse aprofundamento tornou-se indispensável, pois, muitas vezes, não havia outra fonte que pudesse recontar a história de determinadas civilizações. Outras vezes, havia documentos textuais ainda não traduzidos, o que levou os pesquisadores ao estudo de outro tipo de fonte. Por isso, o estudo da cultura material passou a ser fundamental na arqueologia.
Até a década de 1950, a sociologia considerava a cultura material como apenas a última parte do processo de produção, ou seja, na sociologia o consumo era sempre um fim, nunca um começo. Esse quadro começa a mudar a partir da segunda metade do século 20 e, na década de 1970, o interesse na relação entre cultura material e sociedade ganha força. O consumo da sociedade moderna passa a ser analisado como um ritual que mostra a condição social do indivíduo. Essa abordagem foi incorporada da antropologia – que também estuda o consumo como um ritual que sinaliza uma posição social. Uma importante obra sobre essa relação é O Mundo dos bens: para uma antropologia do consumo, de Mary Douglas e Baron Isherwood, lançado no fim dos anos 1970.
Ainda na década de 70, Jean Marie Pesez[2], disse que “embora a história não tenha ignorado a cultura material, durante muito tempo só teve por ela um interesse limitado”. Segundo Pesez, a cultura material pode ser estudada por historiadores, mas é um campo dos arqueólogos. De fato, nas décadas seguintes, poucos foram os avanços da historiografia em relação ao uso da cultura material como fonte documental.
Nas últimas décadas do século 20, houve uma virada lingüística e cultural nas ciências humanas, conhecida como linguistic and culture turn. Essa virada foi responsável por uma ênfase na dimensão discursiva da sociedade, questionando o antropocentrismo da ciência. Em relação ao estudo da cultura material, os teóricos da área trabalham com uma dualidade cartesiana. De acordo com essa corrente, primeiro vem a produção intelectual, depois a realização física desse processo. Isso poderia ser representado, esquematicamente, assim: Dualidade Hierarquizada significa que em primeiro lugar se produz a Cultura Imaterial, depois a Cultura Material.
Entretanto, nos anos 2000, surge outra corrente em oposição à linguist turn, a virada material – ou material turn. Estamos interessados nessa corrente, pois ela dá sentido, significado à cultura material. Há uma crítica à visão passiva da cultura material. Segundo essa corrente, cultura material e cultura imaterial não são coisas totalmente distintas, mas interagem. Aqui notamos uma mudança de paradigma, que pode ser ilustrada pela obra Material Minds, Material Cultures[3] de Nicole Boivin que, apesar de ser uma pesquisa da área de ciências naturais, nos interessa, pois como diz o subtítulo, ela analisa o impacto da cultura material no pensamento, na sociedade e na evolução, até mesmo biológica, do homem. De acordo com a material turn, não há uma relação hierarquizada entre cultura material e cultura imaterial, e sim, uma troca, sem começo, nem fim[4].
Mauad, Militão e Agostini
Pretendemos dialogar em nossa comparação entre Militão e Agostini com o texto As fronteiras da cor: imagem e representação social na sociedade escravista, da pesquisadora Ana Mauad. Esta obra analisa as representações sociais de escravos e ex-escravos tomando como fonte principal a fotografia em estúdio e os anúncios de venda e aluguel de escravos.
O texto utiliza uma fonte imagética, a fotografia - formato de uma das nossas fontes, a obra do Militão Azevedo. Acreditamos também que o fato de Agostini ter usado a litografia para ilustrar o Diabo Coxo e O Cabrião não exclui a possibilidade de comparação entre as obras, pois estamos sempre tratando de imagens.
Como resultado das reflexões fomentadas pelo confronto entre as obras aqui estudadas e o texto mencionado acima, notamos claramente, por oposição, que se nas fotos estudadas por Ana Mauad as pessoas estão no centro da imagem e do debate, Militão, em seus álbuns comparativos, praticamente não fotografa pessoas. Devemos lembrar que Militão atuou também como fotógrafo de estúdio, porém o que nos interessa são os álbuns comparativos das vistas da cidade de São Paulo, mais especificamente, as fotos dos anos de 1862, 1863, 1867 e 1868 - nelas, as pessoas raramente aparecem. Na obra de Agostini, essa tendência se inverte na mesma proporção - apesar da preocupação com as questões urbanas, as pessoas aparecem na maioria absoluta das figuras.
Outra reflexão que consideramos importante diz respeito à perspectiva das imagens. Militão construiu a imagem da cidade monumental, com prédios captados num ângulo que os engrandece ainda mais, tendo o céu no horizonte – digamos que o olhar de Militão é para o céu, para cima. Agostini, ao contrário, desenha pessoas tropeçando em calçadas e várzeas imundas, olha para baixo, onde transitam as pessoas, que nas fotos de Militão são apenas parte da paisagem, e não atuam na cena.
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| Foto de Militão Augusto de Azevedo - Rua Direita, 1862. Diabo Coxo, página 4, Série II. |
[1] BRUNO, Ernani Silva. Apresentação. In: Álbum comparativo da cidade de São Paulo 1862-1887. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1981.
[2] PESEZ, Jean-Marie. História da Cultura Material. In: História Nova. LE GOFF, J. (org.). A História Nova. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
[3] BOIVIN, Nicole. Material Cultures, Material Minds. The impact of things on human thougth, society and evolution. Cambridge: Cambridge University Press, 2008. Tradução do autor: Culturas Materiais, Mentes Materiais. O impacto das coisas no pensamento humano, na sociedade e na evolução.
[4] Informações sobre cultura material baseadas em anotações feitas em sala de aula. Pós-graduação - História Social (FFLCH), segundo semestre de 2011. Professor responsável: Marcelo Rede.
Referências
AZEVEDO, Militão Augusto de. Álbum comparativo da cidade de São Paulo 1862-1887. Apresentação Ernani Silva Bruno; texto Benedito Lima de Toledo, Boris Kossoy, Carlos Alberto Cerqueira Lemos. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1981.
BOIVIN, Nicole. Material Cultures, Material Minds. The impact of things on human thougth, society and evolution. Cambridge : Cambridge University Press, 2008.
CAGNIN, Antonio Luiz. Foi o Diabo! In: Diabo Coxo, edição fac-similar. São Paulo: Edusp, 2005.
CAGNIN, Antonio Luiz. Primórdios da imprensa caricata paulistana: O Cabrião. In: O Cabrião, edição fac-similar. São Paulo: UNESP, 2000.
DIABO COXO. edição fac-similar. São Paulo: Edusp, 2005.
ISHERWOOD, Baron; DOUGLAS, Mary. O Mundo dos bens: para uma antropologia do consumo. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2004.
MAUAD, Ana Maria. As fronteiras da cor: imagem e representação social na sociedade escravista. In: Locus revista de história, v. 6, n. 2. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2000.
PESEZ, Jean-Marie. História da cultura material. In: LE GOFF, Jaques (org.). A História nova. São Paulo: Martins Fontes, 1993.


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